O Medo da Terapia

Ep.16: O Medo da Terapia | O que vou falar para a psicóloga?

Após dona Silvia entregar para Marianna o número de telefone de uma psicanalista, ela se sente pressionada a marcar uma sessão e fica ansiosa pensando sobre o que irá falar e como falar com a profissional.

Domingo com a manhã de folga, sol quente. Ótimo dia para lavar roupa e dar uma arrumada no AP. Marianna acordou animada, iniciará às 14h na loja do shopping.

Acordou cedo para colocar a vida em dia. Colocou a roupa na máquina, estava pegando a vassoura quando o celular tocou. Era a mãe de Mariana.

“Oi filha, como eu sei que você tem folga aos domingos pela manhã, aproveitei para falar com você. Aliás, se eu não ligar você nem lembra que tem mãe. Marianna, você deveria ser mais carinhosa comigo, estou com aquelas dores de cabeça infernais, tomo vários remédios e não passa. Quando alguém me fala – e sua filha que mora por perto, não pode vir cuidar de você? – eu fico chocada porque sou uma desamparada… blá… blá… blá”.

Marianna respirou fundo e pensou : falo ou não falo, continuo engolindo sapos ou coloco tudo para fora?

“Mãe é que eu tenho trabalhado muito, quero crescer neste emprego. Sobra pouco tempo para eu fazer tudo que preciso”.


“Sobra pouco tempo? Entendi. Eu ficaria com as sobras. Você é muito ingrata”.

“Mãe, você me cobra ser presente, atenciosa e carinhosa com você. Eu não queria tocar neste assunto, mas você cuidou de quem na vida para hoje cobrar alguma coisa? Eu vivo sozinha aos trancos e barrancos pagando minhas contas. Meu pai naquela clínica esperando a morte, minha irmã no exterior tentando sobreviver. Já você, foi embora com seu amante para viver sua vida.
E por falar em proteção, mãe, aquele homem asqueroso dentro da nossa casa. Eu era apenas uma criança… eu era apenas uma criança.”

Marianna, aos soluços não conseguia falar mais nada, mas ouviu a última fala da mãe antes de bater o telefone:

“A bonequinha de porcelana não poderia ser tocada? É disso que você está falando? Seu pai era um frouxo, se dependesse dele, passaríamos fome. O homem que você tanto odeia assumiu nossa família e nos sustentou até vocês crescerem…​

…e sobre ser tocada: Quem não foi? Quem não é? Quem não será? Você não é melhor que ninguém Marianna!”

Marianna sentou no chão e chorou compulsivamente. Se levantou, olhou no espelho e começou a dar tapas em seu próprio rosto.

“Você não deveria ter nascido”
 – Falava olhando para o espelho.

Claro que a roupa ficou na máquina, a vassoura não saiu do lugar. Com o rosto inchado Marianna toma um banho e vai para seu compromisso das 14h.

Ao entrar na loja, dona Silvia estava de pé em frente ao balcão. Olhou para Marianna, não disse uma palavra. Apenas anotou um número de telefone em um papel e entregou para a garota.

Marianna olhou no papel em que estava escrito: ‘este é o número do consultório da Dra. Rafaela – Psicóloga –psicanalista’.

Foi um dia difícil, mas cumpriu seu papel no trabalho, a responsabilidade era uma forte característica de Marianna. Ao chegar próximo de casa, ela se sentou no canto da praça com a mão no rosto chorando.

“Não sei se vou conseguir ir nesta sessão, sinto medo, o que vou falar para a profissional?”
 – Dizia ela para si mesma.

INFELIZMENTE, O MEDO E A FALTA DE CRENÇA QUE UM PROFISSIONAL POSSA AJUDAR, IMPEDEM MUITAS PESSOAS DE PROCURAR AJUDA PSICOLÓGICA. ELAS PASSAM ANOS EM SOFRIMENTO SEM SABER QUE EXISTEM SAÍDAS PARA O SOFRIMENTO E SEM SABER COM LIDAR ELE.

Medo da Terapia

Autora: Sandra Barilli

Referência: Sándor Ferenczi

Ep. 16

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