Conhecendo Marianna

História da Taise

"A primeira coisa que fazia era chegar em casa, tomar banho, tomar banho até de madrugada como se todo aquele nojo e sujeira que eu sentia fosse escoar pelo ralo".

Eu era apenas uma menina, quando caí nas mãos do pai de uma amiguinha do meu prédio. E ali tudo começou, fiquei na mão dele praticamente por dois anos. 

 

Minha mãe trabalhava muito e no fim nós filhos ficávamos sem os devidos cuidados. Passei a dormir, viajar, frequentar a casa da minha amiga, como se fossemos de uma única família.

 

Fiquei dois anos sob ameaça, tenho em minha mente sete datas das violências sexuais que sofri, 14 e 15 de Outubro, 2 de Janeiro, 12 e 25 de Março, 14 de Maio, 11 de Julho.  

Essas foram as vezes que me lembro do ato em si acontecer... era amarrada, algemada, dopada, e sob fortes ameaças que ali vivia, não imaginava nem o que ali estava acontecendo; sei que ali tinha que ficar e não podia fazer barulho algum, sentia aquele peso dele todo em cima de mim, sentia muita dor, sentia muito medo, e muito nojo de tudo aquilo.

A primeira coisa que fazia era chegar em casa, tomar banho, tomar banho até de madrugada como se todo aquele nojo e sujeira que eu sentia fosse escoar pelo ralo.

 

Agora depois de 28 anos que consigo falar sobre isso, carreguei essa dor, essa culpa, por muitos anos, como se eu tivesse como me defender sendo apenas uma menina.

Sinto que estou esvaziando de toda aquela dor que sentia, nem eu sabia que acumulava tanta coisa ruim.

Gosto de expressar o que sinto.

Tenho muita dificuldade em falar.

Só agora depois de quase 30 anos que estou conseguindo fazer uma terapia contínua, fui em várias psicólogas e acabava desistindo por não conseguir falar.

 

Se isso afetou minha vida adulta, acredito que sim, em muitos sentidos, me sentia uma pessoa horrível, suja, tinha tanto ódio da minha própria pessoa que me auto agredia. Tenho muita dificuldade em me relacionar, já tentei, mas não, não consigo pensar que algum dia eu possa achar que isso poderá ser uma coisa boa.

Sinto que a cada dia é uma superação, a cada dia estou me esvaziando de tudo isso, sei que jamais vou esquecer, mas sim tenho muita esperança que eu consiga seguir minha vida, sem esses pensamentos e visões me atormentando.

Tenho esperança sim de que tudo isso seja interpretado por outra maneira, que eu consiga aceitar que não sou culpada – QUE NÃO SOU CULPADA – que esse passado não define minha pessoa.

Meu nome é Taise e eu também Marianna!
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