Conhecendo Marianna

História da Alice

“Olha só o que você fez, por causa de uma bobagem do passado, destruir a vida de um homem íntegro.”

Eu só tinha 8 anos quando sofri abuso sexual. Uma vida toda de silêncio, de segredo, de peso e de muita raiva. 

Meu pai era um homem religioso, um cara da igreja, um santo acima de qualquer suspeita que muitas vezes teve a audácia de apontar o dedo e me acusar de ser a errada da vida, a revoltada, a endemoniada, a torta.

Essa hipocrisia toda, essas acusações… era do que eu sempre tive mais raiva.

Guardei aquela cena horrorosa que me aconteceu no quarto dos meus pais, só pra mim, tranquei bem fundo e segui com a vida: tive namorados, casei, tive filhos. Eu era aparentemente uma pessoa “normal”, mas, olhando bem de pertinho, quem é normal, né?

É ISSO QUE A GENTE PRECISA FAZER PARA SOBREVIVER, NÃO É? SENÃO NINGUÉM MAIS SEGUE COM A VIDA. SÓ QUE UM DIA, COMO VOCÊ PODE ADIVINHAR, TUDO ISSO ACABOU EXPLODINDO BEM NA MINHA CARA.

Comigo foi depois dos 40 anos de idade, quando eu tive um contato direto com outras  vítimas de abusos e de estupro como eu. Foram essas pessoas que me mostraram o caminho através de suas histórias, foi quando eu percebi que estava sendo o que eu mais detestava: hipócrita. 

Como eu poderia continuar afirmando que era importante falar sobre o abuso quando eu guardava meus próprios segredos?

Não foi um período fácil, esse de entender que tá na hora de contar. Eu fiquei muito doente e surgiram muitos sintomas absurdos, como crises de pânico violentas e vários outros sintomas físicos, como inclusive uma semiparalisia da boca. Parecia que enquanto o meu cérebro dizia: “tá na hora de falar” o corpo dizia: “feche a boca pra não falar”.

 

Felizmente eu estava fazendo terapia e tive muito, muito apoio nesse processo, senão, eu acredito que até hoje eu ainda não teria dito nada e ainda estaria passando por sérias crises e ainda tendo muitos comportamentos autodestrutivos.

E o dia chegou!!! Quero te contar como foi.

Eu não planejei nada, e foi assim, do nada (só que não né?). Ele mandou uma mensagem boba no grupo, nada especial nem provocativo, mas de supetão saiu, nem pensei duas vezes, respondi na lata e o segredo já era.

 

Saltou!!! Saiu de mim aquilo tudo. Foi uma bagunça geral!!!!

 

Não dá nem pra lembrar de tanta coisa ruim que rolou depois de eu contar. O pior foi para a minha mãe, foi bem complicado e no final todo mundo ficou bem machucado.

 

Minha família, a maioria me apoiou… e os que duvidaram foram tirar a prova com ele imediatamente, que não negou, mas atribuiu os créditos da façanha aos espíritos maus, afinal, não era culpa dele – um ser santo – ter cometido qualquer crime, a culpa era do infeliz do encosto.

 

O que mais me marcou foi uma pessoa da família ter me enviado áudios. Completamente revoltado comigo, bravo pra caramba me acusando de um monte de coisas. Aos berros ele jogo tudo isso em mim:

“Por que você foi desenterrar essa história justo agora?”

“Você viveu tão bem até hoje, não podia continuar assim?”

“Você se casou, teve filhos, você pode ficar com homens, nada disso combina com uma pessoa que disse que sofreu abuso sexual.” 

“E agora? Como eu vou contar para os meus filhos que eles tem um tio abusador?”

“Olha só o que você fez, por causa de uma bobagem do passado, você quer destruir a vida de um homem íntegro.”

“E agora? Como vai ficar a nossa família? Você conseguiu nos dividir e estragou nossos natais.”

Eu tô te contando exatamente o que esse primo disse, pois eu sei que isso acontece na maioria das famílias, é triste e faz parte dessa nossa maldita cultura do estupro.

Na época eu estava bastante fragilizada, muito acabada, então esses absurdos me afetaram demais, demais mesmo.

Resultado, eu cortei relações com qualquer pessoa que ficasse contra mim, pois eu entendi que não precisava de ainda mais daquilo na minha vida.

E felizmente eu consegui matar meu pai – simbolicamente lógico – e cortar relação com ele completamente.

NÃO ACEITO DESCULPAS, NÃO QUERO EXPLICAÇÕES, MUITO MENOS AS MALUCAS QUE ELE DÁ. NÃO QUERO VER NUNCA MAIS. CHEGA!!!! HOJE EU CONSIGO ESCOLHER O QUE É MELHOR PARA MIM.

Foi horrível passar por isso, relembrar tudo de novo e eu sei que na hora parece impossível, mas acredite, depois que passa… ahhhhh, depois que passa a gente entende que foi a melhor coisa que poderia ter acontecido nessa história toda: FALAR!!!

Meu nome é Alice e eu também Marianna!
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