Conhecendo Marianna

Ep.22: Entender o Processo | Compreendendo a batalha.

Marianna, com nostalgia e aperto no peito, senta no chão de seu quarto para ouvir uma música e pensar na própria vida.

Marianna se deu conta de que o processo de lembrar dos acontecimentos traumáticos é muito doloroso, uma mistura de emoções e sentimentos. 

Sentada no chão do seu quarto, ouvindo uma música com letra triste, lembra-se com mais clareza dos passeios em família para a fazenda do padrinho. Pensava por um instante… 

“Como é possível eu ter esquecido desses detalhes tão marcantes?”

A mente procurou jogar aquela realidade no inconsciente para Marianna sobreviver por alguns anos. Porém, mesmo estando no inconsciente, aqueles traumas norteavam a forma de pensar, sentir e reagir diante dos desafios da vida. 

Era terrível demais para suportar aquela verdade: a mãe, egoísta, só conseguia pensar em seus ganhos pessoais; o pai, frágil demais para perceber com clareza o que estava diante dos olhos e reagir em defesa da filha. 

Por muitos anos, esteve sozinha, sem compreender o que aqueles carinhos estranhos significavam. Aquele padrinho tão atencioso.

Marianna conjecturava em seus pensamentos:

 

“Se Vovó Maria estivesse viva por mais tempo, será que ela teria me protegido? Ah… tenho certeza que sim, vovó era forte, uma mulher sábia. Ao longo da vida, me restou o verdadeiro carinho dela, os origamis e suas experiências passadas de forma tão amorosa.” 

“Mas… e aquele homem? O que faz um ser humano fazer isso com uma criança? Agora me lembro que sentia nojo, medo dele.”

Éhhh verdade! agora lembro… da fazenda. Mamãe adorava os finais de semana que íamos para lá. Havia um rio, árvores retorcidas, uma velha casa de madeira. Meu padrinho sentava no barranco do rio, me colocava no colo e me falava o quanto eu era importante para ele.

“Por um breve instante, me sentia especial, escolhida. Acredito que seja por isso que me sinto culpada, eu me sentia cúmplice…”

Marianna se sente sonolenta, era como se uma onda de cansaço que tomasse conta de sua mente. Dormiu ali mesmo no chão enquanto a música continuava em seus ouvidos.

As verdades que sua memória acessava eram grandes demais para suportar, a mente procura uma fuga. Caiu no sono profundo por algumas horas, mas desta vez, Marianna não mais iria esquecer este ponto do seu passado.

Se sentia fragilizada, ao mesmo tempo, também disposta a enfrentar com ímpeto aquilo que já havia compreendido que seria sua alforria da escravidão proporcionada pelo sentimento de culpa.

Marianna acorda, procura seu cisne de origami feito por sua avó. Olha para aquele papel dobrado cuidadosamente. Diz em voz alta:

Eu compreendo o tamanho do meu monstro interno, sinto medo, mas também sinto coragem. Vovó, eu lhe prometo, vou lutar enquanto eu tiver forças.

Entender o Processo

Autora: Sandra Barilli

Referência: Sándor Ferenczi

Ep. 22

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