Catarse

Ep.17: Catarse | Primeiro dia na terapia.

Marianna vai para a sessão psicológica. Inicialmente fica apreensiva, sentada, calada. Diante da terapeuta chora compulsivamente, em seguida fala sem parar.

Chegou o tão esperado dia para a sessão psicológica. Com medo, apreensiva e sem saber o que fazer, Marianna espera ser chamada e entra para o consultório. 

Dra. Rafaela convida Marianna a se sentar na poltrona a sua frente. Marianna com a cabeça baixa, mãos entrelaçadas,  olha para o chão se perguntando o que estava fazendo naquele lugar.

Sempre foi uma pessoa reservada. Até um pouco tímida quando se tratava de intimidades. Agora estava ali para falar da própria vida. Como assim? Se pudesse sairia correndo sem olhar para trás. 

  A terapeuta iniciou a fala.
 
“Marianna, eu suponho que esta seja a primeira vez que você vem a um consultório fazer terapia.”
“Sim, precisamente isso. Eu não sei exatamente o que faremos aqui.”
Não se preocupe, construiremos algo juntas. Estou aqui para lhe ajudar. Primeiro preciso lhe falar que tudo que conversarmos aqui ficará entre nós. Não estou aqui para lhe julgar, mas apenas para você ter um espaço de confiança, um tempo exclusivamente para você.

– “Obrigada, mas não sei o que lhe dizer.”

– “Vamos começar pelo motivo que lhe trouxe aqui.”

– “Certo, eu trabalho em uma loja no shopping. Minha gestora me convidou para passar um final de semana no interior com ela. Conversamos sobre muitas coisas e ela me disse sobre a importância de falar com uma terapeuta. Ela disse que fez bem a ela e que faria bem a mim também.”

– “Sobre o que vocês conversaram?”

– “Eu me lembro de ter contado sobre meus pais. Nunca me dei bem com minha mãe, não gosto de admitir, mas, sinto algo ruim por ela. Meu pai é uma boa pessoa porém muito frágil, muito doente… Minha irmã foi embora para outro país… Me sinto sozinha… Mas é estranho porque não quero o mal para eles, mas não quero por perto…”

Marianna começa a chorar compulsivamente.

“Sim Marianna, muitas vezes temos sentimentos ambíguos. Mas quem disse que teríamos que sentir de uma única forma?”

 

– “É verdade. É bom pensar assim. Agora percebo que tenho tanta coisa para lhe contar, não sei exatamente o que você quer ouvir.”

– “Eu quero ouvir o que você estiver disposta a falar, qualquer coisa que você sentir que deseja falar.”

– “Obrigada. Sabe? existem coisas que não gosto de pensar, parece que meu coração vai explodir, parece que se eu conseguir esquecer deixará de ser verdade.”

– “Infelizmente não Marianna, esquecer não é o caminho. O caminho é encarar este monstro que lhe atormenta.”

– “Monstro… é verdade. Eu sempre me senti sozinha. Desejei tanto que alguém surgisse e pudesse me salvar ou socorrer. Mas meu pai parecia ser mais frágil que eu e minha mãe ocupada demais com tudo que parecia ser mais importante.”

Silêncio.

– “Você disse que precisava ser salva…”

 

– “Sim, eu sempre estava sozinha, com medo, eu não compreendia as coisas que aconteciam. Outras crianças brincavam ao meu redor com tanta alegria, eu não sentia a mesma alegria que elas. Eu estava sempre observando o que acontecia. Muito cedo, aos 5 anos, eu já me preocupava com meu pai, sentia pena. Sentia medo da minha mãe. Acordava e já arrumava minha cama e a cama da minha irmã menor para não dar motivos para minha mãe gritar e reclamar da vida. Eu sentia inveja das outras crianças…”

 

Uma vez mais começa a chorar.

 

– “Marianna, eu concordo com você, há muito a ser dito.”
– “Mas como tudo isso vai me ajudar?”
– “Você irá compreender com o tempo. Apenas não falte às sessões, conforme formos conversando, você irá compreender.”

Marianna não entendia o processo psicanalítico, mas se sentiu à vontade para falar. A sessão acabou mas parecia que queria continuar ali falando a tarde toda. 

Para a psicanálise o falar, o colocar para fora tudo aquilo que sufoca é chamado de catarse, a cura pela fala.

Catarse

Autora: Sandra Barilli

Referência: Sigmund Freud

Ep. 17

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